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PF registrou depoimento de testemunha que não ouviu, mostram mensagens

O diálogo, de 26 de janeiro de 2016, foi enviado pela defesa do ex-presidente Lula ao STF (Supremo Tribunal Federal) nesta segunda (22)

Procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato de Curitiba afirmaram, em diálogos hackeados, que uma delegada da Polícia Federal lavrou o termo de depoimento de uma testemunha sem que ela fosse ouvida.

“Como expõe a Erika: ela entendeu que era pedido nosso e lavrou termo de depoimento como se tivesse ouvido o cara, com escrivão e tudo, quando não ouviu nada… DPFs [delegado da polícia federal] são facilmente expostos a problemas administrativos”, afirmou Deltan Dallagnol em uma conversa por mensagens com o procurador Orlando Martello Júnior.

O diálogo, de 26 de janeiro de 2016, foi enviado pela defesa do ex-presidente Lula ao STF (Supremo Tribunal Federal) nesta segunda (22).

Autorizado pela Corte, o escritório Teixeira Zanin Martins Advogados, que representa o petista, está analisando as mensagens interceptadas ilegalmente por um hacker que invadiu os telefones celulares de autoridades. O material foi recolhido pela Operação Spoofing, que investiga a invasão dos aparelhos, e disponibilizado para a defesa do ex-presidente.

Na resposta a Dallagnol, o procurador Orlando Martello diz, segundo os diálogos transcritos pelo perito Cláudio Wagner, contratado pelos advogados de Lula:

“Podemos combinar com ela [Erika] de ela nos provocar diante das notícias do jornal para reinquiri-lo ou algo parecido. Podemos conversar com ela e ver qual estratégia ela prefere. Talvez até, diante da notícia, reinquiri-lo de tudo. Se não fizermos algo, cairemos em descrédito. O mesmo ocorreu com padilha e outros. Temos q chamar esse pessoal aqui e reinquiri-los. Já disse, a culpa maior é nossa. Fomos displicentes!!! Todos nós, onde me incluo. Era uma coisa óbvia q não vimos. Confiamos nos advs e nos colaboradores. Erramos mesmo!”. O texto foi mantido com a grafia original.

Deltan Dallagnol, mais adiante, pondera: “Concordo. Mas se o colaborador e a defesa revelarem como foi o procedimento, a Erika pode sair muito queimada nessa… pode dar falsidade contra ela… isso que me preocupa”.

Os procuradores se referem à delegada apenas pelo primeiro nome. Na Lava Jato atuava uma delegada, Erika Marena, que trabalhou nela desde seus primórdios e de forma estreita com a equipe de procuradores.

Coordenadora das investigações, a policial chegou a ser apontada como responsável por batizar a operação. Não é possível, no entanto, saber se os diálogos se referem a ela.
Em 2018, Marena foi convidada por Sergio Moro para integrar sua equipe no Ministério da Justiça. Depois da saída dele, acabou exonerada.

A coluna procurou a policial, mas não conseguiu contato.

Na petição encaminhada ao STF, a defesa de Lula diz que os diálogos revelam uma “gravíssima realidade”.

“Além de terem praticado inúmeras ilegalidades contra o aqui reclamante [Lula], a construção de um cenário em que ele ocuparia a liderança máxima de uma afirmada organização criminosa envolveu o uso contumaz de depoimentos que jamais existiram”, dizem os advogados.

Os procuradores da Lava Jato não reconhecem a autenticidade das conversas e dizem que elas podem ter sido manipuladas, além de terem sido obtidas por meios criminosos.

Em nota enviada à reportagem, afirmam que “os procedimentos e atos da força-tarefa da Lava Jato sempre seguiram a lei e estiveram embasados em fatos e provas”. Também dizem não reconhecer “as supostas mensagens, que foram editadas ou deturpadas para fazer falsas acusações que não têm base na realidade.”

Publicado por Folhapress

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